terça-feira, 5 de abril de 2011

Despudorada?

Estava relembrando cada pedacinho do seu corpo por debaixo de toda aquela roupa, seus pelos, a textura de sua pele, o cheiro de sua carne quente e macia... E se estava sentindo isso com um misto de carinho e tesão, como poderia ser despudor de minha parte? Era um conflito muito grande... Por acaso o zelador, o jornaleiro, a copeira, o mendigo, a Dilma, enfim... qualquer ser humano também não é demasiadamente humano para sentir isso com a mesma intensidade?
Para falar a verdade não tive tempo de pensar muito sobre isso na hora, pensei nisso depois. Eu só consegui sentir a sede dele por mim. Eu não esperava que ele fosse aparecer, achei que aquele dia ele tinha coisas demais para fazer, até porque ele estava em véspera de apresentação, e os ensaios estavam frenéticos. Eu mal sabia, mas aquele dia, o diretor havia dispensado todo mundo do grupo, é que muitos não chegaram por conta do alagamento que teve no Anhangabaú e, intolerante como sempre, o diretor cancelou o ensaio.
Ele me trouxe doces, muitos!!! Comprou: jujubas, (ele sabe que amo) amêndoas confeitadas, torrone e doce de leite. Ele me derreteu com esse gesto simples... Queria senti-lo. Cada pedaço, cada respiração, enfim... Ele em mim, para mim, dentro de mim...
Não tinha como evitar o beijo, e nossos beijos sempre foram assim, molhados, tinha pego um pouco de jujuba na mão, perdi as forças, abri a mão e todas se espalharam pelo chão. Me sentia uma gelatina ao sol, minhas mãos buscavam seu rosto, seu peito, se enfiavam por dentro de sua calça, que não demorou muito a sumir desse cenário.
Estávamos nos arriscando, pois meu irmão estava dormindo no quarto, eram 16h, e ele podia acordar a qualquer momento... Mas aquele sofá... Não tinha como resistir. Naquele momento a sala era o palco do nosso tesão, nossas cenas eram íntimas, sempre sabíamos as deixas, sem maquear nossas vontades e não usávamos máscaras, estávamos ali, despidos de qualquer mal.
Os sorrisos eram bobos e quase invertemos as camisetas, se bem que ele não caberia na minha; havia uma sensação de plenitude, não me sentia despudorada, sabia que tínhamos corrido um risco, até porque, minha mãe chegou dali a dez minutos, quando já estávamos vestidos, e quando ela abriu a porta, vi que não estava trancada.
Me recuso a me recriminar. Estava amando, não destrui nenhum sonho infantil, não menosprezei ideias e pessoas, não recriminei iniciativas artísticas e nem censurei ideologias inspiradas em experiências de vida, acredito que isso seria uma das piores formas de despudoramento!!! Após essa minha viagem nas ideias, meu irmão acordou com a cara toda escangalhada.
Ficamos, então, nós quatro na cozinha comendo amêndoas confeitadas, conversando sobre o tempo, José Alencar, o criminoso maldito de Realengo, futebol, os desastres naturais e ouvindo Seu Jorge. E eu pensava: Despudorada eu? Nem ferrando!!!

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