sexta-feira, 15 de abril de 2011

A falta de inspiração.

Queria começar imponente, como os grandes escritores que constroem seus textos fluidamente, como se não precisassem pensar sobre nada, como se tivessem nascido gênios por natureza. Prontos... Tenho dentro da alma uma vontade fudida de deixar um ser estranho a mim, sair lá do fundo, e rasgando minha pele, se desvenciliar dessa carne trêmula, mas a vontade não se realiza, ela só grita por dentro do oco do meu ser, grita aos ares que preciso me achar. Me perdi de mim mesma.
Aconteceu hoje a tarde, eu acreditava que sabia bem o que queria e que era a pessoa mais perfeita do mundo , eu estava muito segura e queria muito aquele papel. Eu precisava daquele papel, era minha vida. Todos os meus projetos estavam naquele pedacinho de papel escrito: Electra. Tinham sido semanas de seleção, ensaios, testes e por aí vai...
O diretor tinha simpatizado comigo, poxa, era visível que era tudo perfeito, que o papel era meu e que aquela peça era um divisor de águas na minha vida. Teríamos a presença de críticos de arte, diretores de outras companhias, e seria nesse primeiro momento que seria decidido por eles se essa peça seria ou não futuramente um filme.
Meu pai não queria essa vida doida de artista para mim, já fazia mais de oito anos que eu era atriz, mas ele nunca aceitou isso. Nunca. Ele só não conseguia mais me impedir, como antigamente, mas gostar, sentir orgulho e contar para os amigos e tal? Não, isso não. Pelo contrário, chegava a ter até raiva. Afinal das contasl, eu sempre fui muito parecida com ele, e desde que me aventurei na arte de atuar, encantar e me realizar, abandonei também esse certo "parecer" que me era extremamente prejudicial. Não queria parecer alguém sem personalidade, sem vontade ... Sem vida!
Naquela tarde, eu esperava uma ligação naquele telefone fixo, como estava sem telefone em casa e o celular descarregado, ele ia ligar na casa do meu pai. Provavelmente para dizer: Olha, vem amanhã as 8h porque o personagem é seu e vamos fazer um ensaio inalgural extra. Não quero atrasos ouviu?
Já tinha dado 16h e nada do diretor me ligar... Já estava com fome, aproveitei para comprar pão. Quando voltei perguntei de novo: E aí? Alguém ligou? Meu pai foi categórico: Não.
Fiquei triste .... triste que ... nossa... indizível!
No dia seguinte fui para o ensaio, pensando que a personagem que eu tanto queria não me merecia na visão do diretor... Quando cheguei, o diretor parecia um leão faminto, raivoso muito mais que puto: putíssimo! E eu sem nem entender o que se passava... Até que em meio a gritos, fúria e ódio ele berrou: Como é que você é capaz de dizer para seu pai que não estava mais interessada na personagem, e que estava pensando seriamente em sair do grupo.
Punhais entraram na minha garganta, minhas cordas vocais se congelaram. Meu pai veio em minha mente, como a personificação do tinhoso, do demo, do cão!!! Tentei me explicar, mas ele não quis nem me ouvir. Disse somente que eu não precisava voltar, que eu podia muito bem ir para a puta que o pariu, que para ele isso não ia fazer a menor diferença.
Me senti um cachorro em terminal de onibus, não. Pior... Me senti um papel higiênico usado... Não... pior... me senti o chorume do lixo... Só pude ligar para o Jonas e pedir para ele me pegar em casa dali meia hora.
Quando cheguei em casa, meu pai veio me receber. Passei por ele como quem passa por um pilar daqueles que segura pátio de colégio.
Estou aqui pegando minhas últimas roupas, os CD´s... Não quero esquecer o da Cássia Eller; é ele que vai me ajudar a chorar hoje a noite na casa do Jonas. Ai como me doem essas paredes, esse cantinho era o único em que eu podia permanecer sendo eu, sem ninguém para tentar abafar meus gostos, pensamentos e sensações... Não sei o que vai ser, eu só sei que essa é a buzina do carro do Jonas, e é para a casa dele que vou levar minhas angustias e talves lá que elas serão curadas... Pelo menos por hoje.

2 comentários:

  1. CA...RA...LHO! desculpa mais não tinha uma palavra que expressasse melhor. Adorei, Mas só consigo entender o título como ironia, acredito que não dá pra escrever tão belas palavras sem inspiração alguma.

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  2. Oh my God!!! Putz!! Ficaria fula da vida se fosse comigo! Mas com certeza naum faltará oportunidades pra ti! Bjs, Lara.

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